Zach Klempf, um executivo do setor de software residente em São Francisco, nos Estados Unidos, sempre sentiu que lhe faltava tempo para visitar os destinos que constavam em sua lista de desejos, como as pirâmides do Egito. No entanto, após aderir ao conceito que vem ganhando força globalmente sob o nome de “microférias” — ou microcations —, ele conseguiu realizar sua viagem mais ambiciosa até o momento.
Logo após uma reunião de diretoria em Nova York, numa quinta-feira, Klempf, de 34 anos, voou para Atenas, onde passou oito horas visitando o Partenon. Em seguida, embarcou para o Egito, conheceu as pirâmides, andou de camelo e visitou o Grande Museu Egípcio, tudo antes de retornar a São Francisco a tempo para o jantar de domingo. O executivo, que financiou a maior parte da jornada com pontos do cartão de crédito, integra um número crescente de viajantes que, sem tempo ou buscando economia, criam roteiros relâmpago de um a três dias.
Essa modalidade de turismo é impulsionada pelas redes sociais, onde influenciadores compartilham itinerários de fim de semana cruzando o Atlântico, e por dados do setor: segundo a plataforma Tripadvisor, a duração média de uma viagem realizada por turistas americanos em 2025 foi de apenas três dias. Laurel Greatrix, executiva do grupo Tripadvisor, sugere que o segredo para essas viagens curtas é ancorar o roteiro em uma única experiência, evitando o planejamento excessivo.
Opções de roteiros curtos em São Paulo
Para o viajante brasileiro que deseja aplicar a lógica das microférias sem precisar cruzar oceanos, o litoral do Estado de São Paulo oferece um cenário ideal. Com mais de uma praia para cada dia do mês, a região permite escapadas rápidas e diversificadas, dividindo-se em três áreas distintas: Litoral Sul, Baixada Santista e Litoral Norte. A proximidade com a capital e a variedade de ecossistemas tornam viável a exploração de nichos específicos em curtos períodos.
O charme e a natureza do Litoral Norte
Em direção ao Rio de Janeiro, o Litoral Norte é frequentemente o destino preferido de quem busca belezas cênicas. São Sebastião, a cerca de 203 km da capital, exemplifica bem essa diversidade com mais de 30 praias. O município abriga desde a calma Boraceia até Maresias, referência mundial do surfe, além de Boiçucanga, famosa por seu pôr do sol. Outro destaque local é o Arquipélago de Alcatrazes, a segunda maior unidade de conservação marinha do Brasil, atrás apenas de Abrolhos.
A região conta ainda com Ilhabela, a “Capital Nacional da Vela”, localizada a 210 km de São Paulo. Com mais de 40 faixas de areia, a ilha oferece opções que vão da pequena Praia do Eustáquio, acessível apenas por mar, até a Praia de Castelhanos. Esta última, a maior do arquipélago, exige disposição para uma trilha de 15 km — que pode ser percorrida a pé, de bicicleta ou veículo 4×4 —, encaixando-se perfeitamente na proposta de uma microférias de aventura.
Completam o cenário do norte Caraguatatuba, considerada a capital da região com suas 17 praias, e Ubatuba. A 225 km de São Paulo, Ubatuba impressiona com mais de 100 opções de praias, incluindo ilhas como a Anchieta e das Couves, e a isolada praia do Bonete, acessível por trilha.
Infraestrutura e história na Baixada Santista
Para quem dispõe de menos tempo de deslocamento, a Baixada Santista oferece a infraestrutura urbana mais robusta. Santos, a apenas 70 km da capital, divide sua ilha com São Vicente e possui sete praias, variando da agitada Gonzaga à Ponta da Praia. Já São Vicente, com seus 73 km de distância, mescla o agito da praia do Itararé com a tranquilidade da pequena Praia dos Milionários.
O Guarujá mantém seu status com 27 praias, oferecendo contrastes marcantes: é possível curtir a urbanizada Pitangueiras ou buscar isolamento na Praia do Cheira Limão, uma faixa de areia de apenas 20 metros acessível por trilha ou mar. Praia Grande, com sua orla totalmente urbanizada e ciclovias, e Mongaguá, com a movimentada praia Agenor de Campos, são opções populares para viagens rápidas.
A região também reserva espaço para o ecoturismo e a história. Cubatão, único município da Baixada sem saída para o mar, foca no turismo ecológico com atrações como o Caminhos do Mar, no Parque Estadual da Serra do Mar. Itanhaém destaca-se por seus costões rochosos e pela Cama de Anchieta, formação rochosa ligada à história do padre José de Anchieta. Peruíbe, por sua vez, equilibra suas praias com sete unidades de conservação ambiental, incluindo a Estação Ecológica Jureia-Itatins.
A tranquilidade do Litoral Sul
Para os adeptos de um turismo mais contemplativo e histórico, o Litoral Sul apresenta destinos singulares como Cananeia, a 260 km da capital. Considerado por pesquisadores como o primeiro povoado do Brasil, o local abriga praias isoladas como a da Laje, no Parque Estadual da Ilha do Cardoso.
A vizinha Ilha Comprida destaca-se por seus 74 quilômetros de praias e pelas últimas dunas intocadas do estado, que podem ser exploradas através de trilhas longas. Iguape, a 201 km, fecha o roteiro com a Praia da Jureia, sua única faixa de areia em uma cidade que figura entre as mais antigas do país.
Seja cruzando fusos horários como Zach Klempf ou descendo a serra para um fim de semana em Ubatuba ou Peruíbe, a tendência das viagens curtas reflete uma mudança no comportamento do turista moderno: a busca por experiências intensas e memoráveis, independentemente do tempo disponível.